domingo, 29 de agosto de 2010

A história de uma gata




Nunca gostei de gatos. Pensava que eles eram uns tremendos aproveitadores, bonachões, interesseiros, que só queriam de nós, humanos, um lugar quente pra morar, comida e carinhos. Aristocráticos e indiferentes, os gatos escolhem seus donos e não se deixam adestrar. Tudo isso não passava de preconceito e falta de convívio com os felinos. Até aí, jamais imaginei criar esse tipo de criatura.



Porém, para além dos preconceitos, estão as circunstâncias que a vida nos apresenta. No dia 22 de janeiro de 2010, era quase meio-dia, um meio-dia diferente. Formava-se no céu uma tempestade e a ventania era tão forte que atrapalhava o caminhar. Ouvi um som estranho vindo da rua, parecia choro de bebê. Fiquei intrigada com aquilo. Fui ver o que era e quando abri o portão de casa, eis que surge uma pequena criatura, molhada, chorona, feia, negra, magra. Ao me ver, aquele ser pequenino correu em minha direção, como quem diz: “me ajuda, isto é o fim do mundo”. Já chovia forte, ventania, trovões, peguei a bichana, coloquei-a em meus braços e levei pra dentro de casa. E agora? O que fazer? Vou enxugá-la e dar comida... mas é pequena, deve beber leite. Preparei um leite e ela bebeu tudo. Estava tão fatigada, que logo dormiu. Minha filha adorou. Meu marido reclamou. Mas ela foi ficando e conquistou a todos. É a gata mais cachorra que já vi: alegre, brincalhona, companheira e dengosa. Seu nome é Ságua, apelidos... são tantos! Dizem que se mede o amor pela quantidade de apelidos que o casal chama um ao outro. Acho que isso também vale para os bichinhos de estimação. Chaninho, gatuta, porcaria da rua, erlang (demônio em mongol), pois era muito feia, quando chegou. Ságua engordou, ficou bonita e os gatos das redondezas já estão de olho. Às vezes, ela some, passeia pela rua, mas sempre volta. Uma vez se perdeu, quando ainda era pequena, e sumiu por três dias, até anúncio na rádio da cidade fizemos. Ela é preta, tem mancha branca no pescoço, no peito e na região pélvica. Digo que ela usa biquíni e colar. Aprendi a cuidar dela e amá-la. A lição disso tudo: não se deve excluir, sem conhecer. Afinal, ganhei uma companheira afetuosa e muito fiel. Sei que não posso tirar todos os gatinhos abandonados da rua, mas quando tirei a Ságua daquele abandono, mudei o destino dela e não perdi nada com isso, só ganhei. Quando a acolhi, promovi um toque em toda a espécie felina com um simples gesto de humanidade. Pra ela fez toda diferença e, pode ter certeza, pra mim também.



Tatiane Vidal





4 comentários:

  1. Lindo...lindo. Belíssima crônica. É preciso amar para conhecer,"além de todos os preconceitos". Emoção pura: "-me ajuda, isto é o fim do mundo!" Guerra e paz, redenção:"é a gata mais cachorra que já vi. Usa biquíni e colar. Vida viva da gente! Viva a Ságua. Viva a Tati e as nossas vidas em nossos pequenos gestos. Imenso abraço, Daniel Leite

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